Homofobia destacada

A RedeHost, além de ser uma empresa onde existe o desejo de inserir a diversidade como um dos pontos da sua cultura, há um espaço democrático para que todos possam debater e trazer assuntos para a pauta. Portanto, no dia 20 de abril, resolvi trazer um assunto que é muito pertinente e precisa ser tratado no ambiente corporativo também. Em homenagem ao Dia Internacional do Orgulho LGBT, estou compartilhando um pouco do conteúdo que eu trouxe para a discussão.

O que é homofobia, para você? Você já se questionou sobre isso? Na maioria das vezes, a gente não tem o costume de refletir sobre coisas que não nos atingem diretamente. No caso da homofobia, ela está tão enraizada na nossa sociedade, que é difícil nos questionarmos sobre ela. O que talvez passe despercebido é que esse preconceito gera problemas para muitas pessoas, além da comunidade LGBTQ+, e são esses pontos que precisam ser trabalhados para gerar a empatia necessária.

Empatia

O primeiro exercício a se fazer é construir a empatia, para que homens e mulheres heterossexuais entendam as dificuldades e dores de fazer parte da comunidade LGBT no Brasil.

Esse vídeo mostra, pela ótica de um homossexual, algumas das situações que passamos ao longo da vida. Se colocar no lugar do outro, muitas vezes precisa de um estímulo, e esse material ajuda justamente nessa parte.

É interessante pensar também na quantidade de héteros que é atingida pela homofobia – vale ressaltar que não existe violência registrada contra a heterossexualidade, por tanto não estamos falando de “heterofobia”. Afinal, muito antes do ódio aos homossexuais, a homofobia tem uma origem no preconceito contra a imagem de feminilidade e qualquer demonstração de afeto entre pessoas do mesmo gênero.

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Situações onde uma dupla de amigos ou irmãos são agredidos e acabam morrendo, ou uma mulher é agredida por ser confundida com uma travesti, estão se tornando cada vez mais comuns. Esse tipo de violência é importante ser discutida, pois abre um leque muito maior de agressões causadas por homofobia, que atinge não só a comunidade LGBT – que é o maior alvo desta violência – mas àqueles que, mesmo não pertencendo ao grupo, demonstram qualquer traço que possa ser relacionado a homossexualidade ou transexualidade.

Origem

Para começarmos a entender a homofobia, é preciso analisar todo o cenário e perceber de onde surge esse preconceito e porque ele está tão introjetado na sociedade brasileira.

Falocentrismo

A ideia de que o órgão sexual masculino é o símbolo do poder permeia muito das teorias filosóficas que são debatidas até hoje, passando por Freud e todo aquele conceito de “inveja do falo”. Nesse sentido, o inconsciente coletivo acaba refletindo em cima do pensamento de que: “se um homem nasceu com esse órgão incrível, que detém o poder da sociedade, é uma blasfêmia ele abdicar disso para se submeter a outro homem, afinal a mulher se submete ao homem para ter o seu ‘falo’.”

Criminalização

No período inicial da nossa República, vivemos muitos momentos que definiram e moldaram alguns conceitos que vemos hoje. A pesquisadora Érika Pretes, em seus estudos sobre a relação histórica da homofobia no Brasil, explica que: “Isso vem do Brasil Colônia, quando havia o crime de sodomia. Enquanto o ladrão respondia sozinho por sua pena, os familiares do sodomita também eram punidos e perdiam todos os seus pertences”. Fato este que contribui para esse preconceito e medo que existe nas famílias de LGBT’s.

Doença

Durante muitos anos, a palavra “homossexualismo” foi utilizada para abordar a homossexualidade, patologizando – o sufixo “ismo” classifica como doença – e fomentando ainda mais o preconceito, também trazendo muito sofrimento para a comunidade através de “tratamentos” fornecidos por psicólogos. Terapias de choque, onde os “pacientes” eram submetidos a cargas elétricas quando estimulados a homossexualidade com imagens, eram apenas uma das cruéis formas de atendimento.

Mesmo com a OMS tendo retirado o “homossexualismo” do registro internacional de doenças há mais de 27 anos, em 1990, o assunto entra e sai de pauta no Congresso Nacional, hoje em dia tratado com o apelido de “Cura Gay”.

Etimologia

A palavra homofobia significa a repulsa ou o medo contra a homossexualidade e/ou o homossexual. Hoje, existe um debate mais profundo sobre a utilização desse termo, pois pode retratar um preconceito pelo fato de representar o medo e acabar trazendo um afastamento da homossexualidade com a normalidade.

Mitos sobre Homossexualidade

Uma maneira muito usual de fortalecimento do preconceito é o reforço de alguns mitos que foram construídos durante alguns anos e tomaram força com a mídia. Um passo muito importante para desconstruir o pensamento é entender essas ideias e refletir sobre elas.

“Ser gay é uma escolha”

Uma das mais comuns é ideia de que a sexualidade é uma “opção” e que, quando se trata da homossexualidade, é uma escolha feita depois de uma certa idade. Eu sempre tento fazer um exercício de troca: Em que momento você escolheu ser hétero? Nenhum né? Você nasceu! Portanto, sexualidade não se escolhe.

“Tá fazendo só pra chamar atenção”

Existem tantas atitudes para ser notado na sociedade: ganhar um prêmio importante, realizar uma ação admirável ou lutar contra o preconceito, por exemplo. Ser homossexual não é uma delas!

“Tá na moda ser gay”

A ideia de que “hoje em dia todo mundo é gay” existe porque, atualmente, nós temos mais liberdade e podemos falar mais sobre o assunto, do que anos atrás, na época em que as pessoas precisavam ocultar sua sexualidade para não sofrer com o preconceito que era muito mais intenso que hoje.

“Beijo gay na novela vai incentivar as pessoas”

Olha, se alguém se sente incentivado a ser gay por um beijo de duas pessoas do mesmo gênero na novela, talvez ela precise ser avisada que a questão não está no beijo …

“Casamento Gay vai destruir a família tradicional”

Isso só vai acontecer se o único motivo pelo qual pessoas heterossexuais não se casam com o mesmo gênero é pelo fato de ele não ser permitido. Nesse caso, o casamento homoafetivo não vai fazer muita diferença né …

“LGBTs querem privilégios”

Se por privilégio for entendido: ter os direitos legais que o casamento já proporciona para os héteros, não ter sua integridade física ameaçada na rua, ter as mesmas oportunidades de acesso ao mercado de trabalho e todas essas coisas que pessoas cisgênero e heterossexuais nunca precisaram se preocupar, talvez a gente queira “privilégios” sim.

“Não vou ser amigo dele porque ele vai me querer”

Esse conceito parte de um pressuposto de que os homossexuais não tem nenhum tipo de critérios e estão a todo o momento interessados em qualquer homem que apareça na frente. Ou pode ser o medo de serem tratados como alguns homens tratam as mulheres na hora de dar em cima, vai entender né!?

“LGBTs têm mais risco de contrair HIV”

Na verdade, pesquisas indicam que a incidência do vírus do HIV em heterossexuais é maior do que em homossexuais. Não existe nada que caracterize esse pensamento além de homofobia pura.

“Homofóbico é um gay enrustido”

Essa é uma afirmação bastante perigosa. Existe sim, uma linha da psicologia que acredita que o ódio e a aversão são gerados pela identificação, porém dizer que todo o homofóbico é um homossexual que vive no armário é muito complicado, porque acabamos isentando os heteressexuais e culpando a própria comunidade pela violência sofrida. Portanto, heterossexuais são homofóbicos, muitas vezes, por serem pessoas ruins mesmo, não por não aceitarem sua sexualidade.

“Bissexuais são indecisos”

Pessoas que sentem atração pelos dois gêneros são criticadas e questionadas pelos dois lados. Ou por “não se aceitarem como homossexuais”, ou por “estarem em cima do muro”. Bissexualidade é uma sexualidade inteira, não pela metade. A capacidade de se sentir sexualmente atraído por homens e mulheres é real e confirmada por diversas pesquisas.

“Quem é a mulher/o homem da relação?”

Numa sociedade onde os papéis de gênero são bastante estabelecidos e o machismo predomina, indicando que as mulheres são inferiores e devem se submeter ao homem, esse tipo de pergunta é bem comum. A ideia de que precisa haver uma pessoa inferior na relação permeia os relacionamentos homoafetivos também. Dica: em uma relação entre dois homens, não tem nenhuma mulher, e no relacionamento lésbico, também não participa nenhum homem.

“Homossexualidade e pedofilia são semelhantes”

É muita falta de caráter – pra não dizer uma grande BURRICE – comparar o relacionamento entre duas pessoas ADULTAS com o fato de um ADULTO abusar sexualmente de uma CRIANÇA. Desculpem o caps lock, essa questão me deixa extremamente nervoso.

“Filho de pais homoessexuais será gay também”

Nós homossexuais somos submetidos a casais heterossexuais a todo momento: nos programas, nas propagandas, nos filmes, nas novelas, no nosso convívio, nossos pais – quando são um casal heterossexual. Isso não interferiu em nossa sexualidade, por que o contrário aconteceria?

“Traveco / Mulher de verdade”

Não tenho lugar de fala para comentar sobre, mas posso dizer que o termo “traveco” para se referir a mulheres transexuais e travestis é muito pejorativo e normalmente utilizado para inferiorizá-las. Portanto, se não quer ofender ninguém, basta usar a terminologia correta. E mulher de verdade são aquelas que se identificam como tal, simples. (Mais adiante irei explicar essas questões de gênero)

“Bicha/viado/baitola/sapatão/machorra/sapata”

Hoje, com o avanço do empoderamento LGBT, essas palavras já foram ressignificadas por nós para tirar a carga de ofensa e usarmos como forma de resistência e tratamento entre a comunidade. Porém, se você utiliza esses termos para inferiorizar alguém, no contexto que for, PARE. Obrigado. Só viado e sapatão pode chamar viado e sapatão de viado e sapatão, lembre disso.

“Gay quer ser mulher / Lésbica quer ser homem”

Existe uma grande confusão entre gênero e sexualidade até hoje. Muitas pessoas ainda acham que somos como pókemons, primeiro nos “tornamos” homossexuais, depois evoluímos para uma transição de gênero. Não é bem assim que funciona, pois gênero e sexualidade são coisas diferentes.

Homofobia Identidade de gênero

Essa imagem é bastante auto explicativa, mas vale o reforço: Identidade de Gênero é como a pessoa se identifica, como ela se reconhece e se enxerga, como ela se expressa; Orientação sexual é por quem essa pessoa se sente atraída, por qual gênero essa pessoa se atrai; Sexo Biológico é o que é definido pelo corpo humano e pelo genital, ou seja, macho, fêmea ou intersexual. Ou seja, cisgênero é quem se identifica com o gênero que foi definido pelo seu sexo biológico e transgênero é quem não se identifica.

É um pouco confuso, mas com um pouquinho de esforço e vontade de aprender é possível compreender essas questões. Por fim, pessoas transgênero podem se interessar pelo mesmo gênero, por exemplo, pois identidade de gênero e orientação sexual são coisas diferentes e não tem relação direta uma com a outra.

Estereótipos

Afeminado / Entende de cabelo, maquiagem, moda e etc / Compulsivo por sexo / Motivo de Piada / Escandaloso / Engraçado / Melhor amigo das meninas

Todos esses conceitos giram em torno da comunidade LGBT, durante anos e são reforçados a muito tempo pela mídia em todos os canais e programas possíveis, principalmente os de humor. Frases como “onde foi que eu errei” e “isso é uma bichona” foram inseridas nos nossos lares durante um longo período, como forma de menosprezar e ridicularizar os homossexuais, o que ajudou a fortalecer esse cultura ignorante e preconceituosa que tanto lutamos contra.

Homofobia esteriótipos negativos

Esses estereótipos são as primeiras barreiras que precisam ser destruídas quando se trata de modificar preconceitos e desconstruir o pensamento sobre a comunidade LGBT. Atualmente, nós temos uma quantidade significativa de pessoas e personagens verdadeiramente representativas e que combatem a homofobia na grande mídia, ajudando a destruir esses estereótipos e informando a população através de uma comunicação de massa, mas levando muitas críticas e xingamentos para isso. O que representa o quanto ainda precisamos, cada vez mais, ocupar todos os espaços.

Homofobia esteriótipos positivos

“A gente precisa PARAR de transformar problemas sociais em problemas individuais.” (Murilo Araújo)

Eu gosto muito de usar essa frase para explicar o sistema da homofobia. No caso, é uma violência que demonstra que homossexuais são inferiores, pois esse pensamento está inserido na nossa sociedade. Os comentários e piadinhas só nos atingem, porque reforçam esse pensamento. Por esse motivo que não existe heterofobia, afinal comentários feitos contra heterossexuais, em termos de sistemas sociais, não tem impacto nenhum. Resumindo: o efeito de baixo para cima não é o mesmo que de cima para baixo.

Homofobia Cordial

A primeira coisa que precisamos entender, é que a homofobia vai muito além do que agredir fisicamente ou coagir de maneira agressiva uma pessoa LGBT. As formas de homofobia mais comuns são aquelas que menos percebemos e que estão presentes no nosso dia a dia, através de pequenos comentários ou piadinhas que parecem passar despercebidas.

A homofobia cordial é, basicamente, a homofobia velada, que pode vir de pessoas próximas, como amigos e parentes, ou de pessoas desconhecidas na rua, nos casos mais agressivos. Ela é sempre mascarada de cuidado e preocupação, e muitas vezes, até de afeto, algumas vezes justificada por questões religiosas ou moralistas dentro dos padrões conservadores.

“Não precisa se expor tanto”
“Precisa sair na rua de mãos dadas?”
“Ser gay tudo bem, mas precisa se beijar em público?”
“Não tenho nada contra gays, até tenho amigos que são”
“Tudo bem ser gay, desde que não fique me cuidando”

Na realidade, esse formato de violência – porque não deixa de ser violento e agredir – é a base estrutural de uma pirâmide de agressão. Quando se faz pequenos comentários ou piadas, eles fomentam o preconceito e dão voz e força para aqueles que podem agredir fisicamente alguém. Funciona como uma pirâmide, onde ele é a base que sustenta os outros níveis de violência.

Homofobia pirâmide

Homofobia Violenta

No Brasil, o número de mortos por homofobia – que foi possível registrar – em 2016 chegou a 343, já em 2017, foi o maior número registrado, com cerca de 445 homicidios. Os dados apresentam que, hoje, um LGBT é morto por homofobia a cada 23h. A expectativa média de vida de travestis e transexuais é de 35 anos, sendo o país que mais mata pessoas trans no mundo, e curiosamente, o que mais pesquisa o termo em sites de pornografia. O que demonstra a sintomática de uma sociedade hipócrita e extremamente preconceituosa.

Homofobia mortes

No mundo, são mais de 70 países onde a homossexualidade é crime, chegando até a pena de morte em alguns deles como Sudão, Arábia Saudita, Irã, Nigéria e Somália. Este ano, foi registrado um campo de concentração apoiado pelo governo, com uma política de caça aos homossexuais na Chechênia, em pleno século XXI.

homofobia países

A violência contra a comunidade LGBT nunca esteve tão explícita e alarmante. Quanto mais avançamos em direitos, sofremos ainda mais repressão por uma cultura de ódio ao diferente, que é sistematicamente estruturada para que cause uma aversão que ultrapassa o imaginável. Um pai que espanca um filho até a morte, uma mãe que esquarteja e bota fogo no corpo do próprio filho, uma travesti que é morta a pancadas e arrastada em um carrinho de mão, um homossexual que é morto espancado e encontrado com um bilhete na boca escrito “nós vamos acabar com essa raça”. Todos esses registros quase sempre nos tiram o pedaço de esperança que criava o pensamento de “eu sei que tudo vai ficar bem”.

Em 2016, um massacre em Orlando nos EUA chocou o mundo. Omar Mateen, que diz ter agido em nome do estado islâmico, entrou na Boate Pulse – voltada para o público LGBT – e realizou o que dizem ter sido o maior ataque com arma de fogo dos Estados Unidos, deixando cerca de 50 vítimas.

De quem é a culpa?

O que faz um homem entrar numa boate e disparar uma arma mais de 50 vezes, deixando tantas mortes? Isso é apenas o resultado de um sistema social homofóbico que protege e justifica esse tipo de comportamento. Pode parecer muito longe ou muita loucura acontecimentos como esse, porém eles só acontecem porque estamos acostumados a banalizar as atitudes que fortalecem esse pensamento. Você pode não estar com a arma na mão, mas o seu comentário ou a sua piadinha pode ser o que a pessoa que está precisa para cometer uma violência.

“Oh, mãos
Porque elas podem amar
Ou podem tirar
Elas podem lutar
Até que consigam salvar
Podem quebrar o mundo
Ou podem mudá-lo também”

As mãos podem segurar uma arma e assassinar LGBT’s dentro de uma boate. Elas também podem segurar outras mãos e lutar contra a homofobia. Agora basta a gente decidir, se vamos deixar nossas mãos sujas de sangue, ou vamos escolher ajudar para que nenhuma gota mais seja derramada.

Aqui você pode conferir a apresentação sobre os detalhes da homofobia que rolou aqui na RedeHost:

E aqui você pode conferir alguns depoimentos dos colegas da RedeHost:

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